Como eu descobri o que eu queria ser quando crescer: meus últimos 20 anos

02/03/2020

Post inspirado pelo fio do David Nemer, que começa com:

Pouca gente sabe, mas eu só fui descobrir o que eu queria da vida depois do meu segundo ano de Doutorado. Se você se sente perdido ainda na faculdade, não desespere.


Quando adolescente, eu realmente não sabia o que queria ser quando crescer. Eu já programava, mas achava que era diversão somente. Até o terceiro ano do colegial, prestei vestibular para onze cursos diferentes. Não lembro mais de todos, mas lembro que, na época, eu contei e eram onze: ciência do esporte na UEL, alguma engenharia no ITA, licenciatura em matemática na UNICAMP, editoração na USP, publicidade e propaganda na FAAP, um monte de outra coisa que nem lembro mais… e comunicação e expressão visual na UFSC. Acabei indo para a UFSC em 2001. E, antes de eu me formar, o curso trocaria de nome: design, com habilitação em design gráfico.

Graduação em design gráfico (2001-2005)

Passei os quatro anos do curso de design meio dividido. Por um lado, me aproximava da tecnologia: continuava programando e estudando programação por conta. Ganhava dinheiro misturando isso com design gráfico: fazia freelas, estágios, tinha bolsas de pesquisa que envolviam sempre tecnologia. Era o auge do Flash, eu escrevia muito ActionScript (aliás, aprendi orientação a objeto com ActionScript!) e fazia o meio campo entre os times de design e os times de desenvolvedores.

Por outro lado, gostava do design: achava utópico e lindo o papo dos designers de que design é diferente da publicidade. O papo era mais ou menos assim: design pensa no usuário final (e um possível aumento de vendas é quase que um efeito colateral), enquanto o foco da publicidade é em empurrar uma mensagem goela a baixo convencendo o público alvo a comprar, seja lá qual for a prioridade e os valores dessa pessoa. Papo pra  boi dormir esse maniqueísmo, claro. Mas eu achava legal isso de focar no usuário, entender os valores dos usuários, o contexto social e cultural, etc.

Mas o tempo foi passando e ninguém no curso de design me ensinava como, de fato, entender esse contexto social e cultural, esse papo do usuário. Como eu tive o privilégio de estudar em uma universidade pública era fácil assistir aulas de outros cursos. E assim baguncei toda minha grade de design e comecei a fazer matérias em outros cursos. Fui estudar em matérias da antropologia, serviço social, psicologia (e depois de me formar em design, ainda assistiria, como ouvinte, aulas da pós em sociologia e em história).

Fui cada vez mais me interessando por ciências sociais (entender o tal do usuário? oba!), e me afastando do design. Nunca me achei um bom designer gráfico, nunca gostei do visual dos meus trabalhos. Então sempre me via me afastando do design em si. Só não sabia para onde estava indo: Tecnologia? Não, para mim, era só um ganha pão. Ciências sociais? Interessante, mas eu ainda me sentia sem preparo e conhecimento para “decidir” que era isso que eu queria. Tinha que mergulhar mais, sentir, testar essa área para ver se gostava.

Me formei em design em 2005 com um TCC inteiramente teórico (sem uma mísera figura, de birra mesmo): era texto do começo ao fim. Se ainda existia algo de designer em mim era o fato que mesmo para um documento de texto de umas 100 páginas, fiz tudo no Adobe InDesign. E acabavam aí meus dotes de designer. Botei na minha cabeça que iria pagar as contas programando. Ganharia dinheiro para trabalhar cada vez menos e, assim, cada vez mais teria tempo para estudar sociologia e passar na prova de mestrado para ciências sociais.

Desenvolvedor web full-stack (2005-2008)

Tempos engraçados esses de 2005 a 2007 em que eu passava a manhã escrevendo plug-in para jQuery e a tarde praguejando Habermas. Foi muito difícil ler Habermas, Marx, Durkheim, Tilly e mais um monte de cientista social sem entender muito da área, sem ter uma base para situar com quem e sobre o que eles estavam dialogando. Claro que eu tinha alguma base das aulas de ciências sociais que eu  havia feito durante a graduação e que eu ainda fazia como ouvinte. Isso me ajudou, por exemplo, a ir muito bem nas questões sobre Weber na prova do mestrado. Mas outros autores eu só iria entender anos depois.

Fiquei muito feliz quando, em 2008, fui aprovado para o mestrado de sociologia política na UFSC. Ainda mais feliz quando descobri que havia passado entre os 5 primeiros, o que me garantia uma bolsa durante o curso. Achava que eu teria que continuar minha vida dividida entre freelas com desenvolvimento web e sociologia. Foi uma alegria saber que eu poderia, por dois anos, não me estressar com dinheiro e me dedicar integralmente a ser um sociólogo. Uau! Parecia que eu havia achado meu rumo.

Mestrado em sociologia política (2008-2010)

Curti muito meu mestrado em sociologia, estava feliz me achando sociólogo, super me identifiquei. Prometi a mim mesmo que deixaria a nova vida me guiar um pouco e que não me preocuparia tanto sobre o que eu faria depois do mestrado: primeiro viraria um sociólogo, depois (ou no caminho) descobriria como sociólogo paga as contas. Eu só não queria voltar a programar, essa fase de trocar código por dinheiro havia acabado, ufa!

Dois anos muito intensos de mestrado, me formei em 2010 sem ter muitos planos. Via algumas alternativas: eu poderia ir para um doutorado, a ideia até me agradava. Mas eu queria muito uma experiência no exterior e nenhuma universidade gringa me aceitou. Nessa época design thinking era novidade e estava muito na moda. E eu sentia uma carência de mais experiência prática, de campo, como sociólogo (afinal, havia feito algumas dezenas de entrevistas em profundidade para minha dissertação e era toda a minha experiência até então).

Mercado de inovação (2010-2012)

Acabei indo trabalhar com no mercado de inovação, parecia uma escolha sábia: envolvia muito da metodologia de projeto e criatividade do design, envolvia também muitos métodos das ciências sociais (design thinking, na verdade devia se chamar social sciences thinking) e, com o passar do tempo, vi que eu me destacava atendendo clientes de tecnologia, justamente por ter alguma familiaridade com a área. De 2010 até 2012, trabalhei para clientes como Google e Panasonic, e ainda com conceitos de plataformas digitais para Itaú e Natura, por exemplo.

Mas eu não sabia se esse mercado era o que eu queria. Eu estava adorando a experiência: como eu disse, eu me sentia meio impostor (mesmo com um diploma de mestre debaixo do braço) como sociólogo. Eu só havia estudado dois anos de sociologia (contra quatro de design), a conta não fechava. Então aproveitei esses anos de design thinking para ganhar muita experiência de campo e compensar essa lacuna.

E dessa confiança que eu ia criando em me ver cada vez mais como sociólogo, veio novamente a vontade de estudar mais, academicamente falando. Vontade de fazer doutorado. E, dessa vez, uma universidade gringa me aceitou. Fui aprovado, em 2012, para o doutorado em sociologia na University of Essex, na Inglaterra.

Mas deu ruim. Eu não tinha bolsa e a anuidade na Inglaterra, para não-europeu, custava mais que doze mil libras esterlinas. Eu não tinha como pagar três ou quatro anuidades dessa. Disse que aceitaria a vaga de doutorando, mas que iria me candidatar a bolsas no segundo ano. A universidade disse que não era assim que funcionava na Inglaterra: ou entro com bolsa e saio com bolsa, ou entro sem bolsa e saio sem bolsa. Desisti do doutorado e comuniquei a universidade.

Uns dias depois, a diretora da pós em sociologia de lá me procura com uma proposta maluca: gostamos do teu perfil, dizia ela, queremos você aqui, mas não temos bolsa. Ela sugeriu que, como eu estava disposto a ser estudante sem bolsa por um ano, eu cursasse um mestrado deles que durava um ano. Enquanto isso, eles segurariam minha vaga de doutorado para o ano seguinte e, então, eu poderia tentar bolsa para o doutorado em 2013.

Fiquei meio ressabiado, mas quando vi que um dos mestrados deles tinha foco em metodologia de pesquisa, amei: eu sentia que eu tinha uma base teórica forte vinda do meu mestrado na UFSC, eu sentia que eu tinha muita experiência de campo vinda do meu tempo com design thinking e, logo, o que faltava era uma base em metodologia. Topei e me mudei para Inglaterra em 2012, pilhadíssimo para virar um sociólogo full-stack.

Mestrado em pesquisa sociológica (2012-2013)

Meus anos programando haviam realmente ficado para trás. Entre 2008 e 2010 eu ganhei a vida como sociólogo com bolsa de estudos, entre 2010 e 2012 eu era sociólogo no mercado de inovação. Em 2012 e 2013 seria minha preparação para o doutorado, vivendo das minhas economias e apostando alto: cada centavo que eu havia guardado nesses 29 anos de vida seriam dedicados a me manter no ano do mestrado, com o foco de mostrar pra todo mundo em Essex que eu merecia uma bola de doutorado. Isso viabilizaria mais essa etapa na minha formação, e, de tabela, mais três ou quatro anos vivendo, financeiramente como sociólogo! Uau. Eu estava empolgadíssimo. Cada vez mais programação era uma diversão de infância, que me ajudou a pagar as contas por anos e anos, mas que nunca me cativara como profissão. E eu sentia que estava ficando cada vez mais distante da tecnologia!

Minha pesquisa de mestrado era sobre sociologia do transporte, com foco em modalidade urbana e usando etnografia para coleta de dados. Essa pesquisa seria feita entre final de 2012 e meados de 2013. Mas o que me acontece em janeiro de 2013? Aaron Swartz se suicida.

Ele era um ativista hacker que eu admirava há um tempo. E o contexto em que ele tira a própria vida me tocou muito: envolvia cultura digital, poder do estado, poder corporativo, judiciário e muita coisa que me interessava, como sociólogo. No dia seguinte à morte dele entrei na sala da minha orientadora e praticamente anunciei que iria trocar o tema da dissertação de mestrado. Não lembro se foi a voz ou o olhar dela que me chamou de maluco, mas já emendei com um resumo de alguns segundos do caso do Aaron Swartz, uma fala que ensaiei mentalmente diversas vezes antes de entrar na sala da orientadora. Ela se encantou. “Que sociologia do transporte o que, esse tema é muito mais interessante!” E foi assim que acabei fazendo minha dissertação de mestrado sobre sociologia do direito e ativismo hacker, tendo análise de documentos como minha principal fonte.

Estava eu ali, flertando com a tecnologia depois de uns 5 anos distante. Mas era como sociólogo: eu não era desenvolvedor. Era apenas um cientista social entendendo como tecnologia se relaciona com as instituições, com os poderes, cultura, valores etc. E, no meio disso tudo, acabei lendo que Aaron Swartz programava em Python (na verdade li todo o caso judicial dele, um absurdo de 1000 ou 2000 páginas de legalês). Eu já tinha escutado falar de Python, mas nunca tinha me interessado até então, mas se Aaron Swartz usava, deve ter algo de bom, pensei. E assim Python virou minha diversão de final de semana. Comecei a aprender Python para me divertir e descansar da sociologia. Uma diversão como qualquer outra, como marcenaria, culinária, jardinagem, sabem?

Um pouco antes dessa fase, antes de eu começar a aprender Python de fato, vivi algumas experiências que misturavam tecnologia e sociedade também. A tal da Primavera Árabe era recente, no Brasil tinha uma febre de colaboração com financiamento coletivo e eu estava muito perto de pessoas que fizeram parte da criação do Catarse, do Nós.vc etc. E era junho. Sim, aquele junho de 2013.

Doutorado em sociologia (2013-2019)

Foi desse contexto que tirei minha ideia para a tese de doutorado, que foi sobre financiamento coletivo e ciência política. O ano era 2013 e lá estava eu, mais sociólogo do que nunca, começando o doutorado. Eu sabia que ia me entediar de passar três ou quatro anos (no fim, seriam cinco!) estudando o mesmo tema e, então, me coloquei uma meta pessoal: me dedicar mais às minhas brincadeiras de final de semana. Ao longo do doutorado, me propus a aprender 3 linguagens de programação, no tempo livre, para não bitolar demais na sociologia. Não decidi quais linguagens de programação seriam. Python era uma candidata, claro. E essa candidatura se confirmou (as outras duas, com o passar do tempo, seriam Ruby e Elm, mas isso não vem ao caso).

O meu primeiro ano de doutorado foi empolgante. Me sentia aprendendo muito, amadurecendo como pesquisador, ganhando autonomia na sociologia. Mas curiosamente, não me empolgava muito com as métricas acadêmicas: publicar artigos me parecia distante, via a pressão dos meus orientadores para que (eles mesmo) publicassem, fossem ativos no Twitter, dessem aula, etc. como uma coisa meio inócua. E, por outro lado, estava gostando de me divertir com Python, automatizando umas coisas chatas e tal. No começo do segundo ano de doutorado, minha pesquisa ia bem, mas eu me sentia meio em falta de sintonia com o meio acadêmico. Nessa época eu tive meu primeiro pull request (contribuição para um projeto de código aberto) aprovado no GitHub! Minha diversão de final de semana ganhava outra dimensão com esse marco simbólico.

Um pouco depois disso, comecei a dar aula na universidade. Minhas turmas eram do primeiro ano do curso de graduação em sociologia. Me decepcionei. Eu adoro compartilhar o que sei, mas gosto de fazer isso com quem está interessado. Mas esse não parecia ser o caso da maioria dos meus alunos. E, claro, não seria o meu caso com 17 ou 18 anos de idade, morando longe dos pais e gozando desse tipo de liberdade pela primeira vez na vida. Mas fato era que eu não me sentia à vontade ali, naquele momento. Me sentia como que forçando-os a estudar sociologia.

Então, em 2015, fiz algo que eu não fazia há uns 7 anos: peguei um freela de programação. Mais: me voluntariei em dois projetos de tecnologia, como desenvolvedor (um era uma moeda alternativa, e outro, uma plataforma de debates).

Eu estava me envolvendo em projetos no qual eu acreditava, que tinha um propósito claro e que eu estava alinhado com esse propósito. O valor que eu entregava como desenvolvedor ia impulsionar coisas nas quais eu acreditava. Isso era muito diferente da minha experiência anterior, quando eu, basicamente, fazia o site que me pedissem, sem questionar o propósito nem o valor. Desenvolvia da maneira mais ágil possível para pegar a grana e ir estudar outra coisa (no caso, ciências sociais).

Foi nesse momento, no final do segundo ano de doutorado, que eu comecei a entender que era possível usar tecnologia como voz política. Começou a fazer muito mais sentido as história de Aaron Swartz, da galera do Catarse e Nós.vc. Comecei a entender que dava para ligar o que eu estudava de financiamento coletivo e ciência política no doutorado, com outras experiências digitais: ativismo hacker, redes sociais, colaboração etc. E, claro, não só a parte positiva, mas também a parte perigosa de vigilância, privacidade, rastros digitais etc. E, mais importante, percebi que eu poderia navegar nesse mundo tanto como sociólogo quanto como desenvolvedor.

E foi assim que descobri minha “vocação”. No começo não me preocupava em ganhar dinheiro apenas com tecnologia cívica. Me contentava em ganhar dinheiro com qualquer coisa (como sociólogo ou desenvolvedor) sabendo que seria experiência profissional que me capacitaria para trabalhar com tecnologia cívica no tempo em que não estivesse trabalhando para pagar as contas. Foram alguns anos assim até que em meados de 2018 passei a viver exclusivamente de tecnologia cívica. A contar do ano em que prestei vestibular, foram quase 20 anos me descobrindo e redescobrinto. E, por enquanto, é isso que quero da vida!


Como eu descobri o que eu queria ser quando crescer: meus últimos 20 anos” by Eduardo Cuducos is licensed under a
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