Para que servem as mídias sociais

Nas últimas semanas a Meta virou manchete no Brasil, e talvez no mundo, pela sua falta de isenção durante as eleições federais brasileiras, o que seria não só antidemocrático, mas também interferência externa na soberania de um país. Ativistas digitais rapidamente começaram a exigir que o governo federal invista em uma rede social brasileira — curiosamente, a ideia circulou em grupos de Instagram e WhatsApp. A reivindicação se justifica pela necessidade de criar uma plataforma resistente à captura por bilionários e à oligarquia das big techs.

Com isso, comecei a me perguntar o que as pessoas realmente querem com esse clamor. Com minha bagagem m sociologia, costumo não focar tanto em soluções, então isto não é a resposta, mas minhas reflexões sobre o tema: para que servem as redes sociais ou, em outras palavras, o que as pessoas querem das redes sociais nos próximos anos?

O fracasso da economia da atenção

Outro dia eu postei que o que deveria ser uma economia da atenção virou uma economia da tensão. Eu estava brincando não só com as palavras, mas com a dinâmica de uma economia da atenção combinada com o comportamento humano: o que fisga as pessoas nas plataformas são, em grande parte, gatilhos emocionais como a indignação. As plataformas dependem de você estar ali (vendo anúncios), então elas vão te entregar mais indignação para te manter “scrollando” por mais tempo. Nos deixar tensas, ansiosas o tempo todo é o que faz o capitalismo de plataforma feliz. É isso que move tempo de tela, reações, compartilhamentos, cliques e todas as métricas de sucesso da maioria das redes sociais online.

Parece uma métrica contraintuitiva para medir o sucesso ou o fracasso das redes sociais. O problema dessa métrica é que ela não mede o que vejo como o potencial real da internet quando o assunto é democracia. Não é preciso ser ter doutorado em sociologia para reconhecer a natureza antiética e desumana da economia da atenção, mas, acontece que eu tenho doutorado em sociologia, então posso te confirmar esse fato.

Minha pesquisa vem de um mundo pós-Primavera Árabe, quando vimos que pessoas se organizando online tinham potencial para criar algo novo; estávamos animados com a possibilidade de promover mudanças e, ao mesmo tempo, com medo do que essas mudanças trariam. Minha tese de doutorado foi sobre o financiamento coletivo, seu potencial e seus limites ao se perguntar se ele poderia (ou não) ser lido como uma nova forma de ação política:

Empoderar inúmeros grupos menores pode até soar mais plural do que processos em que apenas uma ideia é autorizada a sobreviver depois de uma eleição majoritária, por exemplo. A necessidade intrínseca de apoio financeiro e comunitário para executar projetos por meio do financiamento coletivo criaria uma espécie de filtro para moralidades e julgamentos individuais e, ao mesmo tempo, abriria espaços livres e abertos para as mais diferentes ideias e iniciativas.

A ideia era que conectar pessoas e ideias seria a principal vantagem da internet e, na época, das redes sociais. E isso exige uma métrica de sucesso completamente diferente da da economia da atenção, principalmente porque era um meio de promover ação longe do teclado, longe das telas; não uma estratégia para te manter com os olhos grudados na tela. Então como foi que acabamos medindo sucesso por quantidade de curtidas, compartilhamentos e cliques?

A economia como performativa

Na sociologia econômica se fala muito que a ciência, as ciências sociais em geral, e a ciência econômica em específico são performativas, ou seja, não apenas descrevem o mundo objetivamente, mas o criam, o provocam e o constituem ao criar ferramentas que influenciam o mundo de diversas maneiras. Simplificando: um país não é necessariamente bem-sucedido porque tem um PIB alto. Mas a economia criou uma caixa de ferramentas inteira para medir sucesso que faz qualquer país que use bem essas ferramentas parecer bem-sucedido. A ideia não é nova: na academia, esse argumento existe e é debatido desde os anos 1990; para o público não acadêmico, basta notar como tentamos alternativas ao PIB, por exemplo, usando o coeficiente de Gini ou o Relatório Mundial da Felicidade quando o PIB sozinho não nos ajuda a explicar ou justificar o que esperávamos que ele explicasse ou justificasse.

A economia da atenção é produto de um conjunto de ferramentas desenvolvidas pelas plataformas de mídia social, com seus interesses bem particulares em mente no contexto do capitalismo: elas geralmente vendem anúncios, então quanto mais tempo elas te mantêm nas plataformas, mais conseguem te conhecer e te mostrar anúncios. Elas querem muito te conhecer para entender quais anúncios te mostrar. No fim das contas, isso significa que mais anunciantes darão dinheiro a elas confiando que elas vão saber o melhor público alvo para mostrar aquele anúncio. No capitalismo de plataforma, as empresas precisam escolher entre cobrar de suas usuárias ou vender a atenção delas.

Quando as pessoas pensam no que faz uma rede social poderosa para elas, costumam começar por dois aspectos críticos: de um lado, uma mistura de liberdade e transparência; de outro, o efeito de rede. Isso significa que as pessoas não querem ser censuradas nem silenciadas, e precisam que haja gente ali para ouvi-las, para que sua mensagem tenha alcance — não só dentro das suas comunidades, mas também para além delas.

O modelo de negócio do capitalismo de plataforma definitivamente não está alinhado com isso. Não só porque o interesse financeiro dessas plataformas vem primeiro, mas principalmente porque a noção de alcance, engajamento e visibilidade vem depois. Nesse modelo há necessariamente um gatekeeper, um único conjunto de regras para conseguir (ou impedir) alcance, para promover (ou rebaixar) impacto social. E isso significa que o poder está em quem escreve essas regras, não nas pessoas que usam essa plataforma.

Lições do Brasil

O que aprendemos com o Brasil nas últimas semanas é que podemos hackear os algoritmos da economia da atenção se entendermos (muito bem) esse conjunto de regras proposto por ela. E isso é ótimo, embora eu acredite que essa estratégia não seja sustentável no longo prazo. Além disso, não podemos esquecer que o janonismo replicou justamente o comportamento digital da extrema direita em alguns aspectos, o que significa que ele pode ser imitado como uma estratégia esvaziada das raízes populares e democráticas que caracterizaram o movimento nas últimas eleições.

Mais importante que isso: continuamos jogando num campo em que a lógica do capitalismo de plataforma vem primeiro. Quando vemos as redes sociais como uma arena de conversas públicas, normalmente imaginamos dois mecanismos ideais. Primeiro, que o poder das “microdoações” de tempo ao postar, compartilhar, curtir, clicar possa realmente remodelar a ideia de liderança (política ou não). Segundo, que essa é a forma mais próxima que conseguimos de uma democracia direta, em que decisões são tomadas ouvindo a voz das pessoas e não por representantes (em geral homens brancos e velhos) democraticamente eleitos numa sala chique qualquer, em um canto específico do país.

Quando André Janones levou a esquerda brasileira a uma vitória histórica no segundo turno, éramos literalmente 10 milhões de pessoas (quase 11 milhões, para falar a verdade) num canal de WhatsApp agindo de maneira muito organizada e roteirizada. Isso foi bastante eficaz justamente porque ele conhecia as regras das plataformas e ajudou milhões de brasileiros a executar uma estratégia alinhada com tais regras. E isso foi imensamente importante para a democracia no Brasil — por décadas talvez agradeceremos a ele, a Lula e a essas quase 11 milhões de pessoas por garantir a segurança de nossas instituições democráticas. Apesar disso, acredito que essa não é a rede social como queremos.

Ativismo hacker

O grande problema é que a internet (antes) aberta agora é dominada por plataformas financiadas por publicidade que exigem um alto nível de controle desses fluxos de informação:

Em muitas plataformas, incluindo o Facebook, manipulações algorítmicas são realizadas rotineiramente; elas vão de propósitos tão mundanos quanto decidir a cor de um botão a decisões tão significativas quanto qual artigo de notícia é mostrado ao público. Essas decisões são cada vez mais centrais para processos sociais, políticos e cívicos; consequentemente, os danos algorítmicos que podem surgir dessa forma computacional constituem uma categoria nova, incluindo um espectro de problemas que vai da difamação à violência.

A gente continua jogando o jogo com de acordo com as regras que nos foram dadas: capitalismo de plataforma, economia da atenção. Ao mesmo tempo, temos dificuldade de deliberar, de ter conversas abertas e construtivas, mesmo dentro das próprias bolhas sociais das quais fazemos parte, quem dirá quando queremos alcançar fora delas. O que André Janones liderou no Brasil foi basicamente um drible nessas duas limitações: sua liderança dispensou a deliberação, e seu conhecimento sobre os algoritmos permitiu que a mensagem dominasse a pauta, os assuntos do momento.

Alguns teóricos, como Hannah Arendt, pensam o campo político como um espaço de liberdade e deliberação pública, enquanto outros o veem como um espaço de poder, conflito e antagonismo. Até agora tínhamos tentado ver nossas vidas digitais como aquele espaço democrático aberto e, sob o capitalismo de plataforma, isso virou um tiro no pé. Durante estas eleições, aprendemos a revidar, entendendo que este é um campo de batalha, uma disputa de poder entre visões políticas opostas, mediada por interesses financeiros. De um jeito hacker, batalhamos (e fizemos isso muito bem) mas sem mudar as regras do jogo.

E é assim que volto ao começo do texto: brasileiros querem mudar as regras para suas redes sociais. Querem continuar lutando, mas não de um jeito hacker. Para ativistas brasileiros, a Meta representa aquele capitalismo de plataforma que age como intermediário na nossa democracia. E esse ativismo acredita em um espaço público que não seja mediado por nenhuma corporação, muito menos uma internacional.

Como seria esse mundo pós-plataforma?

Comecemos pelo cerne: nada de capitalismo de plataforma. Nenhuma corporação é dona do espaço, mas alguém ainda precisa pagar por servidores, exercer moderação e escrever ou revisar código. O ActivityPub tem quase 9 anos e entrega isso, mas nunca ganhou tração suficiente para ter o mesmo impacto social da Meta, nosso exemplo do momento. O AT Protocol é um pouco mais novo e também oferece uma ótima alternativa, em que os dados pertencem a cada pessoa que usa a rede, a infraestrutura pode pertencer a muitos agentes diferentes, a moderação é aberta e cada um pode ter sua própria visão e implementação do que uma rede social poderia ser. Meu ponto aqui é que já existem protocolos que garantem os direitos de indivíduos e comunidades, mas isso, por si só, não parece ser o suficiente.

Talvez, muitos diriam, o que falte seja o efeito de rede: não há gente suficiente nessas redes descentralizadas, ou não há pessoas chave suficiente ali, então alcance e impacto são limitados. Aqui é crucial não medir o sucesso no mundo pós-plataforma como mediríamos o sucesso no mundo das plataformas. Por exemplo, durante a mesma eleição no Brasil, dizem que um movimento iniciado no Bluesky (feito com base no AT Protocol) foi crucial para questionar e, como consequência, forçar a derrubada de um site enviesado que, em teoria, ajudaria eleitores a escolher em quem votar. Esse site sempre pendia para políticos conservadores, independentemente de como as pessoas respondessem às perguntas. Ainda assim, tinha o apoio, entre outros, de um dos apresentadores de TV mais bem pagos do país, no seu programa de domingo. A pressão que começou numa rede social descentralizada o derrubou. Isso é impacto.

Gosto de pensar que o efeito de rede tem seu valor, mas há outras coisas com que importam em níveis e papéis diferentes. Meu foco aqui é refletir sobre como esta nova era das redes sociais nos permite trabalhar e expressar melhor nossas identidades, permitir uma multiplicidade de visões sobre privacidade, permitir que organizações de base se coordenem de diferentes maneiras. Não sei como isso se parece, mas sei que não são vídeos curtos de ritmo frenético, com narrações aceleradas que parecem e soam iguais independentemente do conteúdo, do tema ou da orientação política.

Pela minha experiência — na sociologia, no desenvolvimento de software e no ativismo — posso dizer que financiamento coletivo e código aberto propuseram uma relação diferente entre dinheiro, tecnologia e comunidade, e nenhum dos dois se tornou grande o suficiente para ter o impacto que as pessoas sonham que uma nova rede social tenha. Talvez a barreira seja a UX, a experiência de quem usa, talvez precisemos que as grande mídia esteja lá (ou de olho lá) e amplifique nossas vozes, talvez precisemos que governantes, parlamentares estejam ali nos ouvindo. Mas o interessante é que podemos aprender com esses três “talvezes”:

  • Como produto, uma nova rede social precisa ser fácil para quem for adotá-la; se as pessoas não conseguem entender como entrar, ou se não conseguem sentir na prática a diferença entre o que está vindo de novo em relação às plataformas antigas, aí falhamos.
  • Podemos ter nossas próprias bolhas (isso é, de fato, crucial para coordenação), mas se formos apenas capazes disso, então falhamos também. Uma câmara de eco, ou uma plataforma com uma pluralidade de câmaras de eco, faz pouca ou nenhuma diferença no mundo.
  • Precisamos que nossas instituições democráticas debatam a governança desses espaços. Isso pode ser controverso, mas a regulação pode ajudar a impedir que um único agente tome poder demais e, ao mesmo tempo, ajudar a reforçar a natureza descentralizada do poder nessa nova era. Isso é crucial.